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Quando deitado, calado e mudo - da lente do verbo guardado, dentro do cubo do crânio - vejo tudo torto e quadrado.

terça-feira, junho 10, 2008

O Palanque

Desenho da série Mentecaptos:
Meu conto publicado no Ficção de Polpa 2, pela Não Editora. Comprem os livros dessa nova editora!

O Palanque
Pena Cabreira

Amanhecia na pequena cidade de origem alemã e o velho Ruschel já trabalhava sozinho na montagem do palanque com o esmero de quem prepara um cadafalso. O evento estava marcado para as oito horas da noite em ponto, não seria tolerado qualquer atraso logístico. “Eles são os donos do tempo, da cidade e de todos aqui, eu, apenas um prestador de serviços, humilde, mas pontual, impecável, perfeito”. Era mais ou menos o que murmurava o alemão, enquanto serrava e pregava com precisão as grossas madeiras e os sarrafos devidamente afinados e lixados. “Impecável, perfeito”, repetia medindo milimetricamente a madeira. Afiou mais uma vez, com delicadeza, os dentes já extremamente adelgaçados do serrote, sacou o lápis de carpinteiro da orelha marcando a olho uma diagonal no lado mais largo do sarrafo e serrou, passou a ponta do dedo na recente parte pontiaguda, colocou-o na mira do olho experiente e quase sorriu satisfeito. Impecável, perfeito. Pegou o formão da caixa de ferramentas, girou-o no ar com intimidade e começou a desbastar várias cunhas e cavacos para usos determinados. Toda ação do carpinteiro se fazia rápida e sem gestos vãos. Uma ferramenta precisa e eficiente cumprindo um serviço indispensável, era como ele se sentia sempre, e aquela tarefa seria, sem dúvida, a mais importante e preciosa de todas, de toda a sua vida.

Aos poucos, a cidade começou a despertar e os freqüentadores do centro, um a um, foram surgindo na praça onde um alto palanque se erguia em estado bem adiantado de montagem, pelo menos, o feio esqueleto da parte inferior que sustentaria toda a estrutura já estava coberto com um caprichoso tapume de lambri, com macho e fêmea perfeitamente justapostos sem deixar brecha alguma que permitisse olhares curiosos e analíticos para o seu interior. Se tinha uma coisa de que o velho Ruschel se orgulhava era o capricho do seu labor, não suportava críticas e desprezava os elogios. As pessoas viam o palanque se aprontar como que sozinho, tamanha era a objetividade da montagem e a destreza do profissional, que, solitário, executava e limpava o ambiente com a sua obsessão germânica. Por temperamento, raramente aceitava ajudantes, muito menos neste trabalho de extrema responsabilidade, era forte como um touro e se bastava. Não suportava intromissões, tanto que, o pessoal chegava, cumprimentava o velho mestre, fazia algum comentário e, na falta de resposta, se afastava com respeito. O sol subia, mas a obra era mais rápida e ficou pronta mais cedo que o previsto, bem antes do entardecer, permitindo que os organizadores montassem a iluminação, decoração e os preparativos necessários com antecedência. O metódico marceneiro havia riscado no chão referências para cada elemento a ser colocado, cada coisa em seu lugar: mesa, caixas de som, microfones e inclusive o local onde cada autoridade deveria se colocar, conforme planta proposta por ele mesmo e aceita por todos; era impecável, perfeito. Os “maiorais”, como ele dizia, ficariam alinhados de forma que o figurão mais importante se postasse bem no meio e avançado, já que o palanque em seu frontispício central era o vértice de um ângulo aberto, obtuso. Neste desenho triangular, o prefeito teria maior destaque, ladeado à direita, pelo padre; à esquerda, pelo tenente-coronel, seguidos pelos vereadores, o gerente do Banco do Brasil, o tabelião e o empresariado graúdo, todos com suas respectivas esposas. O velho Ruschel foi rigorosíssimo neste detalhe e só se afastou quando teve a certeza de que tudo seria cumprido à risca.

Às oito horas em ponto, a bandinha da Brigada Militar situada na retreta da praça, ao lado do palanque, começou a tocar o hino da cidade, dando início à comemoração. A graudagem foi se chegando, sem pressa, na ordem inversa de importância; até o prefeito, com os seus mais de cento e sessenta quilos, se aproximar, cumprimentar a puxa-sacagem e subir, já eram mais de oito e meia e o velho Ruschel, distante, sobre o pedestal de uma estátua, vigiava.
O grande prefeito, depois de muitos aplausos, iniciou seu discurso abrindo oficialmente o evento. A satisfação geral tomou conta da praça, a população inteira da pequena cidade estava presente, todos felizes e orgulhosos.
O protocolo era seguido a rigor, até que, no auge da festa, quando a bandinha atacava com uma polca para valorizar o ponto alto da fala do político-chefe, iniciaram uns estalos no madeirame do piso, que começou a ceder sob a pressão do peso das autoridades. Rapidamente uma grande cratera se abriu no chão e todos foram tragados pelo buraco, dessa vez em ordem direta de importância, já que, o que cedeu primeiro, foi a parte avançada do palanque, o frontispício; e tudo isso na frente de um povo pasmo. A gritaria foi substituindo o som da banda que foi percebendo aos poucos a gravidade da situação, já que nem todos os músicos enxergavam a cena. Foi um Deus-nos-acuda, todos queriam subir no palanque para socorrer a nata social e política da cidade que sucumbira tendo como platéia a sua própria população.
Os primeiros desavisados que chegaram lá em cima e olharam para dentro do buraco, instintivamente recuaram aterrorizados. A cena era inimaginável, longas estacas verticais e pontiagudas minavam o solo inteiro. Todos os que caíram no buraco estavam cravados, estaqueados, com várias lanças atravessadas em seus corpos. Aquelas vidas que até há pouco brilhavam envaidecidas, de um instante para o outro, jaziam e agonizavam empaladas em uma armadilha ao mesmo tempo tosca e sofisticada. Os gemidos agônicos aos poucos foram cessando e já não havia mais sobreviventes, estavam todos mortos, uns sobre os outros, sobrepostos e trespassados. Uma massa ensangüentada formava um conjunto mórbido, achatado pela composição de estacas vermelhas que se sobressaía em uma geometria organizada e tétrica. O primeiro impacto se transformou em pânico e desespero coletivo, emoções extremas foram vividas na noite mais cruel da história daquela comunidade.
Do alto do pedestal, o velho Ruschel murmurou: “Impecável, perfeito”.

2 comentários:

Marcelo disse...

Olá, Pena Cabreira! Só hoje consegui ler teu comentário no meu blog, pois ele foi identificado como spam, vá entender. Agradeço a visita e conto com novas inscursões e comentários por lá, hehe.
Venho aqui pra te parabenizar pelo teu conto. COM CERTEZA um dos melhores do livro! Eu fiquei me perguntando até o final onde é que a perfeição do "artesão" chegaria, e no último ponto estava o leitor aqui de boca aberta: ponto pra ti! Redondinho, na medida, um tapa na cara! Parabéns mesmo, tipo de conto que eu gosto muito e sei que não é fácil escrever.
Ademais, digalá se esses desenhos também são teus: curti bastante. E onde mais posso encontrar histórias tuas? Fiquei curioso (ponto pra ti de novo!).
Forte abraço, colega de antologia!

A Autora disse...

Pena, eu adorei este teu conto!!

Parabéns! A minha irmã - que me representou no lançamento - também gostou.

Bj