Quem sou eu

Minha foto
Quando deitado, calado e mudo - da lente do verbo guardado, dentro do cubo do crânio - vejo tudo torto e quadrado.

domingo, março 11, 2012

A Maior Praia do Mundo

4 programas nos sábados de março na RBS (12:30h) " A Maior Praia do Mundo". O tema do primeiro: "Origem, Piratarias e Naufrágios". Direção Pena Cabreira, produção Cubo Filmes.
Clique no título e assista o filme.

terça-feira, setembro 06, 2011

Gauchão de Literatura


Gauchão de Literatura: me convidaram para arbitrar o jogo entre Juremir Machado (1930 - Águas da Revolução) e Fabian Balbinot (Doença e Cura), topei. Ta aí. Se gostarem, divulguem. Valeu!

sexta-feira, agosto 27, 2010

Story Board - Sertanejo


Despacito e sempre
buscando uma vida melhor.

Desenho de story board que fiz pra Mirela Kruel.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Riscos Sem Palavras

Ao querido, grande fotógrafo e artista gráfico Roberto Silva, dedico essas minhas irresponsabilidades gráficas que ele tanto valoriza, obrigado amigo.

quinta-feira, junho 03, 2010

Manoel de Barros - Poeta!


Obra completa do Manoel de  Barros relançada. Coisa imperdível. Ninguém sai ileso de um livro desses. Quem entra, sai diferente. Poeta maior das coisas mínimas. Emociona e estimula: "Desaprender oito horas por dia ensina os princípios", "Há certas frases que se iluminam pelo opaco", "Como pegar na voz de um peixe", "E um sapo engole as auroras", "Eu escuto a cor dos passarinho", "Hoje eu desenho o cheiro das árvores", "Não tem altura o silêncio das pedras"... Fragmentos magnéticos do Livro da Ignorãças. É bom ir lá. Abraços.

terça-feira, maio 25, 2010

Caiu nas minhas mãos um pequeno e precioso livro de Charles Kiefer de 2001 - Nós Que Inventamos a Eternidade & Outras Histórias Insólitas - que me caiu os Butiás do bolso! Narrativa rápida e precisa. Contos plenos de referências, com vôo (voo é ridículo) próprio. Kiefer conta histórias acrescentando à literatura. Obrigado.

quarta-feira, abril 28, 2010

Tecniart Filmes no ar!



Amigos, o site da Tecniart Filmes já está no ar. Lá, além dos trabalhos comerciais constará, através do blog da Tecniart - http://tecniartfilmes.com.br/blog - os projetos legais que estamos e estaremos envolvidos: ficção, documentários, animações, programas de TV... E mais, teremos uma galeria de arte com artistas amigos e toques e textos de literatura da Confraria de Quinta. Visitem, sigam e prestigiem. Abraços!

quarta-feira, dezembro 03, 2008

Léa Masina e grupos de estudos literários



Amigos das letras, a mestra em literatura Léa Masina estará ministrando grupos de estudos literários em 2009. Há vagas, corram... Imperdível!
O e-mail dela tá aí: lmasina.ez@terra.com.br

Da Idéia, o Miolo


Da Idéia, o Miolo

Eu só sei que quando o tempo passa
como agulha que trespassa o infinito,
O pensamento é grito
mas o quarto é mudo.

O corpo - tronco, cabeça, membros
é prateleira, janela, medo.
Do lado de cá tudo é dentro
é de frente com o impossível.

Quando deitado
calado e mudo
dentro do cubo do crânio,
da lente da palavra guardada,
eu vejo tudo torto e quadrado.

No oco do escuro cego
eu me pergunto pro eco
sem resposta, claro.
Saber é não ter.
Certeza é só uma, tudo.

Nem tudo é profundo, é claro
tem sempre o outro lado
o fato, o esquadro,
o sentido, o tato, o certo.
Um tratado desconhecido.

Por isso eu, brabo, burro e errado
não sinto de todas as coisas
o verdadeiro sentido lato
e então, raivoso como cão
mordo o rabo, a razão e lato.

Aí, eu penso, só comigo e torto:
porque tudo que por dentro é brilho,
lá fora, no claro do escuro todo
é só da idéia, o miolo?
Um pouco do muito pouco
um pensamento só
apenas pó?

quinta-feira, setembro 11, 2008

Senhores

Um díptico que me deu grande prazer de pintar e que foi adquirido pelo meu querido amigo e ex-sócio Ricardo Batista.
Clique sobre a pintura para visualizá-la em tamanho maior.
Mais material no link Pena: Desenhos/Pinturas.

sexta-feira, agosto 29, 2008

Satolep


Sobre Satolep de Vitor Ramil.

Quem não conhece o tabuleiro de xadrez das ruas da cidade natal de Vitor Ramil, deverá entrar em Satolep com mais cuidado. Escravidão, aristocracia, crueldade e poesia gastaram os paralelepípedos perfeitos de seus calçamentos, tornando-os irregulares para sempre. Os cheiros do fumo (marca Diabo) e do charque marcaram e dividiram as mentes dos homens, inaugurando em tempo perdido a simetria assimétrica de Satolep.
Selbor, o fotógrafo volta à sua cidade, mas nada será igual – ele sabe disso. Nunca voltamos, quando muito, vamos novamente, sobre outra camada de tempo, sobre as mesmas pedras, mais gastas e mais irregulares. A tentativa angustiada de um novo olhar sobre as nunca-mais-mesmas-coisas cria em Selbor o deslocamento de uma intimidade perdida. Uma profunda intimidade perdida.
O trânsito aparentemente naturalista (e genial) do personagem-narrador com personagens reais (marginalizados em sua época – Simões Lopes Neto e Lobo da Costa) e fundamentais à identidade de uma cidade às avessas e atemporal, dão ao romance uma verossimilhança labiríntica envolvente. O jogo da sobrevivência de quem retorna é incerto e não tem regras claras, há armadilhas, perspectivas distorcidas, falsas simetrias...
Uma canção de Sérgio Ricardo diz: “filho que sai da terra, volta diferente, volta trazendo uma vontade dentro...”. Em Selbor esta vontade não é clara, cristalina, há muita serração em Satolep e um bafejo na vidraça para reencontrar a alma; mas há lama, lodo e rosas espinhentas. Há um fatalismo, mas principalmente uma tentativa desesperada de voltar o tempo e salvar uma cidade e suas almas mais queridas.
Entre os florais e as geometrias enganadoras dos pisos hidráulicos a história se oculta e se revela - se apresenta. Assim, sem facilidades. Quando a pegamos por uma de suas tantas pontas, ela se mescla nas escaiolas dos corredores úmidos da arquitetura neoclássica tardia e nos escapa. São as formas como Vitor Ramil nos conta a história de Selbor, ao contrário e pra frente.
Em Satolep a poesia dá o tom, mas a história anda. Ao contrário e pra frente de maneira magistral.
O re-olhar impressionista multifacetado do fotógrafo sobre a massa arquitetônica imperativa, convulsiona e faz-se uma história sob luzes e sombras, reflexos, espelhamentos, paralelismos inconfiáveis e um duplo superior - um irmão mais velho que parte antes - e uma família enclausurada em uma redoma de memória vã. E a certeza amarga de que nascer leva tempo.
O mantra rege o romance: Nascer leva tempo. E vozes guiam: “Tenho sede da chuva lá fora”, versa Lobo da Costa. “A milonga geometriza as coisas”, diz o Compositor. “Para as almas é morte tornar-se água”, intui um pai de fumaça. E Selbor, o fotógrafo, ao amanhecer pede às preciosas casas enfileiradas da rua Paysandú: “Não se mexam”.
Textos e fotografias se complementam em aparente revelia, ou sob lógica própria. As cenas são mudas, mas não há arquitetura sem verbo. Há um conceito circular em espiral no qual Selbor mergulha. Um caminho sem volta? Um círculo incompleto? Simões Lopes ilumina: “Almas querem estar em curso, indo de um lugar a outro, fazendo conexões entre as coisas”.
Trata-se de uma leitura difícil, orgulhosa, “cheia de personalidade”. Não é fácil de entrar, mas depois, impossível abandoná-la, a única saída possível deste labirinto-literatura está na última página do livro. Afinal, o que esperar de uma história que se passa na cidade em que “à noite a Biblioteca Pública não fecha. Não para que os leitores entrem nela a toda hora, mas para que a umidade saia”?

Eu, que nasci na mesma terra do Vitor - por desgraça e privilégio – achei em Satolep, além da belíssima narrativa de trama primorosa, a chave da minha Arca de Blau particular, aquele acervo de lembranças que todos os que nasceram por aqueles pampas carregam dentro de si. E pra quem não é de lá, ou nunca leu Simões Lopes Neto, tá mais do que na hora de ouvir os causos de um certo “gaúcho pobre, Blau, de nome, guasca de bom porte, mas que só tinha de seu um cavalo gordo, o facão afiado e as estradas reais...”, depois ler o Satolep novamente e vice-versa, sempre.

Toda boa literatura tem o poder da transformação e a minha alma pampeana que também “veio do frio”, nunca mais foi a mesma depois de viver Satolep.

Satolep, como já disse Tom Zé a respeito de Os Sertões do Euclides da Cunha, é gibi do bom.

Pena Cabreira.

terça-feira, agosto 12, 2008

Mais Não Editora


Clique no título e conheça o pequeno universo em expansão da Não Editora.
Abaixo, escritores da Não Editora: Reginaldo Pujol Filho ("Azar do Personagem") e Rodrigo Rosp ("A Virgem Que Não Conhecia Picasso") - sócio da editora - no lançamento do "Ficção de Polpa 2".

Não Editora



Seguinte, ao colocar neste blog o meu conto "O Palanque", acabei cometendo uma infração ética com os amigos da "Não Editora" que o publicaram no seu livro "Ficção de Polpa 2". Claro que foi um ato involuntário e ingênuo, mas mercadológicamente este conto está comprometido com aquela edição e eu nao deveria tê-lo usado em outra mídia. OK, nada de trágico aconteceu, não fui esquartejado, nem sequer incluido em uma lista negra da Não. Para minimizar a minha ignorância divulgo aqui o livro juntamente com o endereço do site da "Não Editora".

quarta-feira, julho 09, 2008

Amanda


Amanda

Amanda não dormiu direito naquela madrugada, a cama era um mar revolto e os sonhos, nuvens que formavam cenas terríveis, tenebrosas: gigantes devoravam bebês, mulheres eram violentadas por bandos de bárbaros, náufragos mais mortos que vivos pendurados em uma jangada acenavam desesperados para um escuro infinito. A seqüência daquelas imagens selvagens transformavam aquele sonho no pior dos pesadelos. O pior de toda a sua vida. Cinco da manhã e Amanda saltou da cama como um afogado emerge de um redemoinho sugador, molhada, ofegante e desesperada; sobrevivera àquela batalha e parecia ter sido por pouco. Nada fazia sentido, não era dada a ter pesadelos, dormia sempre muito bem, oito horas completas, limpas, sem culpas. Conforme sua respiração normalizava, relembrou detalhes do sonho e com as sensações redimensionadas, algumas coisas se encaixaram: aquelas imagens mal-sonhadas não eram exatamente de sua propriedade, pertenciam a pintores que ela estudara há muito tempo em suas aulas de história da arte; mas agora, tornavam-se animações pessoais de quadros famosos de Goya, Delacroix e principalmente de Géricault com sua “A Jangada de Medusa”, considerado por alguns, o quadro mais trágico de toda a história da humanidade. Aquela noite para ela fora como a travessia de Dante na barca rumo à cidade dos infernos, mas sem Virgílio. Por que exatamente aquela seleção terrível de imagens? O que significavam? Amanda começou aos poucos a estabelecer algumas conexões entre o sonho e o desejo de esfaquear Alfredo no dia anterior. Enquanto retirava os cremes da noite, Amanda reconstituía o duelo que travara com o namorado no bar de sempre.
“Não, senhor, esta não é a melhor maneira de acabar a nossa história, de se livrar de mim, um simples tchau, levantar, ir embora e me deletar do teu HD... Tu achas que é assim, Alfredo? O que está acontecendo? Cansou do nosso caso de amor? Vocês homens são realmente muito engraçados, só o que interessa é a trepada, depois que passa o tesão, o negócio é ir embora, encontrar os amigos com muita cerveja gelada e um monte de rabo-de-saia na volta. Homem é foda! Tudo bem que seja, nada contra, mas só isso, é muito pouquinho.”
“Amanda, não é por aí, o que acontece é que é muita cobrança, tu racionalizas demais e aí a nossa relação, ou sei lá o quê, vai se desgastando... Quando a gente vê, o que sobra é uma afeição, um carinho, mas não tem mais prazer, entende? E aí, o que toma conta é uma puta vontade de ser livre, de não precisar dar satisfação pra ninguém. Quem sabe daqui um tempo a gente volta a conversar e...”
“Peraí, seu merda, tu tá me tirando pra tua mãe, é? Então, tu achas que é cair fora e voltar quando der vontade que a bacana aqui vai estar disponível, te esperando? Vocês são todos iguais, Alfredo, saem de dentro da mãe e depois ficam querendo voltar pelo buraco de todas as outras mulheres que encontram no caminho... Tudo se resume em ficar enfiando o pau em qualquer lugar quentinho que aparece e depois ir embora. Decide, meu caro, ou vai ou fica, se for, é pra não voltar, mas se ficar, vamos ter que conversar muito bem conversados...”
Amanda, frente ao espelho, petrificada com o seu comportamento, não se reconhecia naquelas palavras que queria não ter dito. Mas disse. Não queria ter sentido o gosto do desprezo. Mas sentiu. O rosto refletido não era o da mulher decidida e independente, de hábitos assépticos e perfeccionistas que ela julgava ser; pela primeira vez, Amanda enxergava as marcas das oportunidades e desejos que sufocou ao longo dos anos, das decisões que não tomou. Inclusive a que mais lhe remoia, a opção de não ter filhos. Sentiu-se uma Medeia, assassina dos filhos que não teve com um Jasão que nunca existiu. A verdade, era que, Alfredo estava sendo punido pelo pesado colar de frustrações que ela estava cansada de carregar.
“Tomara que não seja tarde demais...”, pensou com o espelho.

Entre bisnagas de tinta e pincéis de pêlo de marta, sob metros de tela, o sexo era feito de um jeito absurdo e incoerente como o dadaísmo, selvagem como um quadro fauvista e egocêntrico como o coração de um artista. Amanda não reclamava daquilo, achava justo e exato em sua vida precisa. Não havia cobranças nem acordos, apenas magnetismo, uma atração executável, um preenchimento de energias em duas vidas modernas, sem místicas, crenças, nem futuros. As sessões de amor eram enquadradas em telas de 70x120, registradas com as pinceladas expressionistas de Alfredo. O que ficava era uma espécie de memória sofrida do orgasmo, formas distorcidas, laceradas, tão estranhas à Amanda, que ela achava graça daquilo tudo. Sentia-se lisonjeada por ser retratada por ele e ao mesmo tempo aliviada por não se enxergar naquele sofrimento. Não interessava o coração lacrimável de Alfredo, dele, servia sua cultura, suas metáforas e seu cheiro acre-doce de sexo e terebentina. O pintor era o talismã de Amanda e também a fração volátil da relação.

Mas, agora, parecia que o não-futuro chegara e ela não sabia caminhar em um não-chão. O cenário era surreal e Amanda uma personagem semiviva de um quadro mórbido e onírico de Paul Devaux, uma Vênus nua e perdida entre esqueletos. A morte do prazer e sua tristeza.
“Amanda, existe outra pessoa...”
“Há! Eu sabia, tem uma vagabunda no meio, mais uma, não é, Alfredo?”
Amanda não acreditava que havia dito aquilo. E disse mais:
“Afinal, quando é que tu vais crescer, Alfredo? Sabe que eu acho que tu me tiras pra tua mãe mesmo?”
“Amanda, eu tô apaixonado.”
“Não, Alfredo, tu estás encantado, é diferente. O que tu estás sentindo é um cheiro novo de fêmea...”
“Amanda, eu estou amando um homem...”
A frase de Alfredo rasgava a tela das possibilidades de forma irrecuperável, não havia restauração possível daquele tecido tênue e frágil em que foram depositados todos os momentos daquela espécie de caso de amor.
Amanda olhou profundamente nos olhos de Alfredo e sentiu outra vez o chão lhe faltar, desta vez o do cadafalso, e teve uma inexplicável vontade de abraçá-lo, de dizer que estava tudo bem, que ela, mais uma vez, o entendia. Mas não era assim. Era tarde demais... Aconteceram coisas, transformações e Amanda não percebera. Aquele Alfredo não era o mesmo a quem ela se entregava em vôos cegos nas noites de tempestade interior. Sentimentos, desejos se mexeram e ela ficara parada, estática com as suas certezas. Seu motor vital a traíra, ultrapassara fronteiras, atropelara emoções, mas sem sair do lugar, nunca. Nenhum milímetro além da própria solidão.
Amanda segurou com força as mãos de Alfredo e se deu uma única lágrima, uma única lente de aumento que a permitiu enxergá-lo desnudo, humano e não mais como uma máquina de prazer. Viu que à sua frente estava um homem capaz de amar, e de não amá-la. Um homem, no mínimo, surpreendente, sensível e corajoso. Amanda sentiu inveja e medo. Sentiu vontade de ser mãe, para o quê, certamente, já era mais do que tarde, sua alma tornara-se angulosa e sintética demais, como um quadro cubista.


Pena Cabreira.

segunda-feira, junho 30, 2008

Poema


Não me cabe a poesia em si
Mas me cabe a poetiza a sós
Seria isso uma heresia?
Ou seria uma carência só?

quarta-feira, junho 18, 2008

Filme




Agora,
De onde me olham os olhos que me olham?

De dentro do teu crânio
De dentro do teu gênio
De dentro do teu pânico

Sempre os olhos do ser
São os olhos do fazer
Tatos de sofrer e ser

Pelo olhar preciso
Do cego que executa
Pelo tato sensível
Do tosco que chora
Pela excelência do verbo
Do analfabeto que fala

É isso!

Pela dimensão do socorro
Pela certeza do fracasso
Pela incidência do erro
Pela não desistência
E pela desimportância do sucesso

Arte é erro, é berro, é noite
Arte é principalmente noite
Sob o sol, a arte é noite
Arte é o pensar obscuro

É necessariamente não saber

O filme é a mentira roubada
A captura da coisa-não
Filme é captura indevida
Verdade não acontecida
Lágrima de acrílico

Só que, como toda arte
O filme, filmado por gente
É da gente extensão - tração
Traição, emoção – linguagem

Filme é ferramenta apenas
Um filme é uma idéia captada:
Capacidade concreta da coisa abstrata
Filmar a coisa é amar a língua da coisa

Filmar é ser a língua da coisa toda
É dizê-la toda, sentindo-a – obliqua e diretamente
Sempre.

Poema e desenho: Pena Cabreira

terça-feira, junho 10, 2008

O Palanque

Desenho da série Mentecaptos:
Meu conto publicado no Ficção de Polpa 2, pela Não Editora. Comprem os livros dessa nova editora!

O Palanque
Pena Cabreira

Amanhecia na pequena cidade de origem alemã e o velho Ruschel já trabalhava sozinho na montagem do palanque com o esmero de quem prepara um cadafalso. O evento estava marcado para as oito horas da noite em ponto, não seria tolerado qualquer atraso logístico. “Eles são os donos do tempo, da cidade e de todos aqui, eu, apenas um prestador de serviços, humilde, mas pontual, impecável, perfeito”. Era mais ou menos o que murmurava o alemão, enquanto serrava e pregava com precisão as grossas madeiras e os sarrafos devidamente afinados e lixados. “Impecável, perfeito”, repetia medindo milimetricamente a madeira. Afiou mais uma vez, com delicadeza, os dentes já extremamente adelgaçados do serrote, sacou o lápis de carpinteiro da orelha marcando a olho uma diagonal no lado mais largo do sarrafo e serrou, passou a ponta do dedo na recente parte pontiaguda, colocou-o na mira do olho experiente e quase sorriu satisfeito. Impecável, perfeito. Pegou o formão da caixa de ferramentas, girou-o no ar com intimidade e começou a desbastar várias cunhas e cavacos para usos determinados. Toda ação do carpinteiro se fazia rápida e sem gestos vãos. Uma ferramenta precisa e eficiente cumprindo um serviço indispensável, era como ele se sentia sempre, e aquela tarefa seria, sem dúvida, a mais importante e preciosa de todas, de toda a sua vida.

Aos poucos, a cidade começou a despertar e os freqüentadores do centro, um a um, foram surgindo na praça onde um alto palanque se erguia em estado bem adiantado de montagem, pelo menos, o feio esqueleto da parte inferior que sustentaria toda a estrutura já estava coberto com um caprichoso tapume de lambri, com macho e fêmea perfeitamente justapostos sem deixar brecha alguma que permitisse olhares curiosos e analíticos para o seu interior. Se tinha uma coisa de que o velho Ruschel se orgulhava era o capricho do seu labor, não suportava críticas e desprezava os elogios. As pessoas viam o palanque se aprontar como que sozinho, tamanha era a objetividade da montagem e a destreza do profissional, que, solitário, executava e limpava o ambiente com a sua obsessão germânica. Por temperamento, raramente aceitava ajudantes, muito menos neste trabalho de extrema responsabilidade, era forte como um touro e se bastava. Não suportava intromissões, tanto que, o pessoal chegava, cumprimentava o velho mestre, fazia algum comentário e, na falta de resposta, se afastava com respeito. O sol subia, mas a obra era mais rápida e ficou pronta mais cedo que o previsto, bem antes do entardecer, permitindo que os organizadores montassem a iluminação, decoração e os preparativos necessários com antecedência. O metódico marceneiro havia riscado no chão referências para cada elemento a ser colocado, cada coisa em seu lugar: mesa, caixas de som, microfones e inclusive o local onde cada autoridade deveria se colocar, conforme planta proposta por ele mesmo e aceita por todos; era impecável, perfeito. Os “maiorais”, como ele dizia, ficariam alinhados de forma que o figurão mais importante se postasse bem no meio e avançado, já que o palanque em seu frontispício central era o vértice de um ângulo aberto, obtuso. Neste desenho triangular, o prefeito teria maior destaque, ladeado à direita, pelo padre; à esquerda, pelo tenente-coronel, seguidos pelos vereadores, o gerente do Banco do Brasil, o tabelião e o empresariado graúdo, todos com suas respectivas esposas. O velho Ruschel foi rigorosíssimo neste detalhe e só se afastou quando teve a certeza de que tudo seria cumprido à risca.

Às oito horas em ponto, a bandinha da Brigada Militar situada na retreta da praça, ao lado do palanque, começou a tocar o hino da cidade, dando início à comemoração. A graudagem foi se chegando, sem pressa, na ordem inversa de importância; até o prefeito, com os seus mais de cento e sessenta quilos, se aproximar, cumprimentar a puxa-sacagem e subir, já eram mais de oito e meia e o velho Ruschel, distante, sobre o pedestal de uma estátua, vigiava.
O grande prefeito, depois de muitos aplausos, iniciou seu discurso abrindo oficialmente o evento. A satisfação geral tomou conta da praça, a população inteira da pequena cidade estava presente, todos felizes e orgulhosos.
O protocolo era seguido a rigor, até que, no auge da festa, quando a bandinha atacava com uma polca para valorizar o ponto alto da fala do político-chefe, iniciaram uns estalos no madeirame do piso, que começou a ceder sob a pressão do peso das autoridades. Rapidamente uma grande cratera se abriu no chão e todos foram tragados pelo buraco, dessa vez em ordem direta de importância, já que, o que cedeu primeiro, foi a parte avançada do palanque, o frontispício; e tudo isso na frente de um povo pasmo. A gritaria foi substituindo o som da banda que foi percebendo aos poucos a gravidade da situação, já que nem todos os músicos enxergavam a cena. Foi um Deus-nos-acuda, todos queriam subir no palanque para socorrer a nata social e política da cidade que sucumbira tendo como platéia a sua própria população.
Os primeiros desavisados que chegaram lá em cima e olharam para dentro do buraco, instintivamente recuaram aterrorizados. A cena era inimaginável, longas estacas verticais e pontiagudas minavam o solo inteiro. Todos os que caíram no buraco estavam cravados, estaqueados, com várias lanças atravessadas em seus corpos. Aquelas vidas que até há pouco brilhavam envaidecidas, de um instante para o outro, jaziam e agonizavam empaladas em uma armadilha ao mesmo tempo tosca e sofisticada. Os gemidos agônicos aos poucos foram cessando e já não havia mais sobreviventes, estavam todos mortos, uns sobre os outros, sobrepostos e trespassados. Uma massa ensangüentada formava um conjunto mórbido, achatado pela composição de estacas vermelhas que se sobressaía em uma geometria organizada e tétrica. O primeiro impacto se transformou em pânico e desespero coletivo, emoções extremas foram vividas na noite mais cruel da história daquela comunidade.
Do alto do pedestal, o velho Ruschel murmurou: “Impecável, perfeito”.

O Pandeiro


O Pandeiro, desenho pro meu amigo Paulo Coutinho, que tá na China.

segunda-feira, março 26, 2007

Curtos e Sujos



Eu tenho razão
Maria é puta. João é cagão; mas nem todos pensam assim. João, por exemplo, acha que não. Maria, por sua vez, sabe que eu tenho razão. Um dia ela chupou o pau dele de maneira diferente, com mais carinho e atenção. Ele sentiu que a partir daquele dia, tudo ia ser diferente. Subiu a calça, pagou... E nunca mais voltou.

No Prato
Neco, bicha pobre, duro como o pau sonhado, com o cu em flor, entra lordemente no bar. Pede o de sempre; um pratinho qualquer, barato, mas decorado com tomates-cereja e uma folhinha de alface verde bem clarinha. Tudo bem certinho. Mas eis que num redepente furacão, adentra subitamente a peituda da Norminha e, sem meias palavras, debruça-se à mesa do boneco, e em lágrimas despeja um amontoado de frustradas trepadas. Neco, puto da vida mas num gesto elegante, sem sair do seu recato, chama:
- Garçom, a conta por favor, caiu uma puta no meu prato!

Taco a Taco
Na sinuca, imbatível era o Caco. Pra ele não tinha taco torto nem caçapa cabaçuda, entrava com bola e tudo, era duro, mandava um bolão. Mas, na cama dele, com a Tereca, o campeão era o Telinho.

O amor é tato
A bunda da Juracy era um escândalo, deformada, desproporcional, horrível – perfeita. Era pesada, mil olhos grudados todos os dias ela carregava. Todos esperavam uma tragédia, perigava por força daquela barra, despencar. Até que um dia, Amarildo – o ceguinho da Lotérica, com muito tato apenas, escondeu em seu barraco aquele prêmio, mais cobiçado que a Mega-Sena.

Só por ti
- Nem vem que não tem! Fala escaldada a dona do bar - a Juracy, furiosa com o Amauri. – Tu vens bêbado de outro boteco, sem um puto no bolso, pra babar aqui!
Amauri, caidaço, sem nexo, tasca sem perder a deixa:
- Beber... eu bebo com qualquer um... agora, babar... só por ti Juracy.
E tomba de cabeça sobre a mesa. E sob a sombra do chapéu de feltro surrado, escorre um rastro de baba gosmenta. Juracy delicadamente limpa aqueles lábios adormecidos e pé-por-pé, apaga a luz, mas só a daquela mesa.

Era...
Era uma puta pra lá de usada, adorava um retoço, rebolava entre as mesas num trote meio agalopado; da indumentária mínima saltava carne pra todos os lados, era um daqueles casos em que o pouco é demais; uma vadia e tanto: sincera demais, autoconfiante demais, velha demais e muito, mas muito espaçosa – um caso claro onde o muito é muito pouco. Uma vagabunda que vivia sem pedir licença, com uma alegria vulgar, irritante e uma tal intimidade na vida que chegava a ser obscena, intolerável. Um dia ela não apareceu, nem no outro, nem depois, sumiu pra sempre sem deixar vestígios.
Que saudades daquela mulher...

Quase
Fred não foi nem voltou, ficou ali, parado, com aquela cara de salame que ele fazia quando dava cagada. Cleusa, acostumada, tirou ele de cima com nojo, se virou e foi dormir. O macho ficou ali, de olho aberto, todo melecado.

Tudo certo
Não tem como dar errado, somos feitos um para o outro, um bêbado e uma vadia, um deprimido e uma histérica, um branco e uma negra, uma inteligência e uma simpatia, um desempregado do dia e uma trabalhadora da noite. Eu preencho de dúvidas o vazio da tua existência, os buracos do teu sexo, a tua boca com a minha língua; eu esvazio a tua carteira, roubo a tua alma e libero o teu corpo, eu tiro o que não tens, te dou o que não precisas e calo a tua voz com o meu olho, e quando te bato, estou apenas marcando na tua carne o meu pavor, o medo de enxergar o que perdi, o que não possuo mais – o teu desejo, o teu tesão, o teu grito de prazer dolorido, o teu gemido.
Não tem mais como dar errado, seremos um só novamente. Estávamos mortos, não era vida, era o espelho torto dela, era morte em vida, era mentira... Mas agora és livre, eu te libertei dela, as minhas mãos na tua garganta te devolveram a dignidade, te deram um novo horizonte, estanquei esse fluxo de ar asfixiante, enganador, impedi que ele continuasse invadindo o teu corpo que é meu, te levando vontades por outros homens; só agora podes, à distância, entender o meu amor por ti, eu sou o teu ar; eu sou tudo o que és e só o que tens. Eu sou finalmente o teu homem e o teu deus, porque te dei a vida, enquanto continuo atravessando a morte. Nada mais vai dar errado.