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Quando deitado, calado e mudo - da lente do verbo guardado, dentro do cubo do crânio - vejo tudo torto e quadrado.

quarta-feira, julho 09, 2008

Amanda


Amanda

Amanda não dormiu direito naquela madrugada, a cama era um mar revolto e os sonhos, nuvens que formavam cenas terríveis, tenebrosas: gigantes devoravam bebês, mulheres eram violentadas por bandos de bárbaros, náufragos mais mortos que vivos pendurados em uma jangada acenavam desesperados para um escuro infinito. A seqüência daquelas imagens selvagens transformavam aquele sonho no pior dos pesadelos. O pior de toda a sua vida. Cinco da manhã e Amanda saltou da cama como um afogado emerge de um redemoinho sugador, molhada, ofegante e desesperada; sobrevivera àquela batalha e parecia ter sido por pouco. Nada fazia sentido, não era dada a ter pesadelos, dormia sempre muito bem, oito horas completas, limpas, sem culpas. Conforme sua respiração normalizava, relembrou detalhes do sonho e com as sensações redimensionadas, algumas coisas se encaixaram: aquelas imagens mal-sonhadas não eram exatamente de sua propriedade, pertenciam a pintores que ela estudara há muito tempo em suas aulas de história da arte; mas agora, tornavam-se animações pessoais de quadros famosos de Goya, Delacroix e principalmente de Géricault com sua “A Jangada de Medusa”, considerado por alguns, o quadro mais trágico de toda a história da humanidade. Aquela noite para ela fora como a travessia de Dante na barca rumo à cidade dos infernos, mas sem Virgílio. Por que exatamente aquela seleção terrível de imagens? O que significavam? Amanda começou aos poucos a estabelecer algumas conexões entre o sonho e o desejo de esfaquear Alfredo no dia anterior. Enquanto retirava os cremes da noite, Amanda reconstituía o duelo que travara com o namorado no bar de sempre.
“Não, senhor, esta não é a melhor maneira de acabar a nossa história, de se livrar de mim, um simples tchau, levantar, ir embora e me deletar do teu HD... Tu achas que é assim, Alfredo? O que está acontecendo? Cansou do nosso caso de amor? Vocês homens são realmente muito engraçados, só o que interessa é a trepada, depois que passa o tesão, o negócio é ir embora, encontrar os amigos com muita cerveja gelada e um monte de rabo-de-saia na volta. Homem é foda! Tudo bem que seja, nada contra, mas só isso, é muito pouquinho.”
“Amanda, não é por aí, o que acontece é que é muita cobrança, tu racionalizas demais e aí a nossa relação, ou sei lá o quê, vai se desgastando... Quando a gente vê, o que sobra é uma afeição, um carinho, mas não tem mais prazer, entende? E aí, o que toma conta é uma puta vontade de ser livre, de não precisar dar satisfação pra ninguém. Quem sabe daqui um tempo a gente volta a conversar e...”
“Peraí, seu merda, tu tá me tirando pra tua mãe, é? Então, tu achas que é cair fora e voltar quando der vontade que a bacana aqui vai estar disponível, te esperando? Vocês são todos iguais, Alfredo, saem de dentro da mãe e depois ficam querendo voltar pelo buraco de todas as outras mulheres que encontram no caminho... Tudo se resume em ficar enfiando o pau em qualquer lugar quentinho que aparece e depois ir embora. Decide, meu caro, ou vai ou fica, se for, é pra não voltar, mas se ficar, vamos ter que conversar muito bem conversados...”
Amanda, frente ao espelho, petrificada com o seu comportamento, não se reconhecia naquelas palavras que queria não ter dito. Mas disse. Não queria ter sentido o gosto do desprezo. Mas sentiu. O rosto refletido não era o da mulher decidida e independente, de hábitos assépticos e perfeccionistas que ela julgava ser; pela primeira vez, Amanda enxergava as marcas das oportunidades e desejos que sufocou ao longo dos anos, das decisões que não tomou. Inclusive a que mais lhe remoia, a opção de não ter filhos. Sentiu-se uma Medeia, assassina dos filhos que não teve com um Jasão que nunca existiu. A verdade, era que, Alfredo estava sendo punido pelo pesado colar de frustrações que ela estava cansada de carregar.
“Tomara que não seja tarde demais...”, pensou com o espelho.

Entre bisnagas de tinta e pincéis de pêlo de marta, sob metros de tela, o sexo era feito de um jeito absurdo e incoerente como o dadaísmo, selvagem como um quadro fauvista e egocêntrico como o coração de um artista. Amanda não reclamava daquilo, achava justo e exato em sua vida precisa. Não havia cobranças nem acordos, apenas magnetismo, uma atração executável, um preenchimento de energias em duas vidas modernas, sem místicas, crenças, nem futuros. As sessões de amor eram enquadradas em telas de 70x120, registradas com as pinceladas expressionistas de Alfredo. O que ficava era uma espécie de memória sofrida do orgasmo, formas distorcidas, laceradas, tão estranhas à Amanda, que ela achava graça daquilo tudo. Sentia-se lisonjeada por ser retratada por ele e ao mesmo tempo aliviada por não se enxergar naquele sofrimento. Não interessava o coração lacrimável de Alfredo, dele, servia sua cultura, suas metáforas e seu cheiro acre-doce de sexo e terebentina. O pintor era o talismã de Amanda e também a fração volátil da relação.

Mas, agora, parecia que o não-futuro chegara e ela não sabia caminhar em um não-chão. O cenário era surreal e Amanda uma personagem semiviva de um quadro mórbido e onírico de Paul Devaux, uma Vênus nua e perdida entre esqueletos. A morte do prazer e sua tristeza.
“Amanda, existe outra pessoa...”
“Há! Eu sabia, tem uma vagabunda no meio, mais uma, não é, Alfredo?”
Amanda não acreditava que havia dito aquilo. E disse mais:
“Afinal, quando é que tu vais crescer, Alfredo? Sabe que eu acho que tu me tiras pra tua mãe mesmo?”
“Amanda, eu tô apaixonado.”
“Não, Alfredo, tu estás encantado, é diferente. O que tu estás sentindo é um cheiro novo de fêmea...”
“Amanda, eu estou amando um homem...”
A frase de Alfredo rasgava a tela das possibilidades de forma irrecuperável, não havia restauração possível daquele tecido tênue e frágil em que foram depositados todos os momentos daquela espécie de caso de amor.
Amanda olhou profundamente nos olhos de Alfredo e sentiu outra vez o chão lhe faltar, desta vez o do cadafalso, e teve uma inexplicável vontade de abraçá-lo, de dizer que estava tudo bem, que ela, mais uma vez, o entendia. Mas não era assim. Era tarde demais... Aconteceram coisas, transformações e Amanda não percebera. Aquele Alfredo não era o mesmo a quem ela se entregava em vôos cegos nas noites de tempestade interior. Sentimentos, desejos se mexeram e ela ficara parada, estática com as suas certezas. Seu motor vital a traíra, ultrapassara fronteiras, atropelara emoções, mas sem sair do lugar, nunca. Nenhum milímetro além da própria solidão.
Amanda segurou com força as mãos de Alfredo e se deu uma única lágrima, uma única lente de aumento que a permitiu enxergá-lo desnudo, humano e não mais como uma máquina de prazer. Viu que à sua frente estava um homem capaz de amar, e de não amá-la. Um homem, no mínimo, surpreendente, sensível e corajoso. Amanda sentiu inveja e medo. Sentiu vontade de ser mãe, para o quê, certamente, já era mais do que tarde, sua alma tornara-se angulosa e sintética demais, como um quadro cubista.


Pena Cabreira.