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Quando deitado, calado e mudo - da lente do verbo guardado, dentro do cubo do crânio - vejo tudo torto e quadrado.

segunda-feira, junho 30, 2008

Poema


Não me cabe a poesia em si
Mas me cabe a poetiza a sós
Seria isso uma heresia?
Ou seria uma carência só?

quarta-feira, junho 18, 2008

Filme




Agora,
De onde me olham os olhos que me olham?

De dentro do teu crânio
De dentro do teu gênio
De dentro do teu pânico

Sempre os olhos do ser
São os olhos do fazer
Tatos de sofrer e ser

Pelo olhar preciso
Do cego que executa
Pelo tato sensível
Do tosco que chora
Pela excelência do verbo
Do analfabeto que fala

É isso!

Pela dimensão do socorro
Pela certeza do fracasso
Pela incidência do erro
Pela não desistência
E pela desimportância do sucesso

Arte é erro, é berro, é noite
Arte é principalmente noite
Sob o sol, a arte é noite
Arte é o pensar obscuro

É necessariamente não saber

O filme é a mentira roubada
A captura da coisa-não
Filme é captura indevida
Verdade não acontecida
Lágrima de acrílico

Só que, como toda arte
O filme, filmado por gente
É da gente extensão - tração
Traição, emoção – linguagem

Filme é ferramenta apenas
Um filme é uma idéia captada:
Capacidade concreta da coisa abstrata
Filmar a coisa é amar a língua da coisa

Filmar é ser a língua da coisa toda
É dizê-la toda, sentindo-a – obliqua e diretamente
Sempre.

Poema e desenho: Pena Cabreira

terça-feira, junho 10, 2008

O Palanque

Desenho da série Mentecaptos:
Meu conto publicado no Ficção de Polpa 2, pela Não Editora. Comprem os livros dessa nova editora!

O Palanque
Pena Cabreira

Amanhecia na pequena cidade de origem alemã e o velho Ruschel já trabalhava sozinho na montagem do palanque com o esmero de quem prepara um cadafalso. O evento estava marcado para as oito horas da noite em ponto, não seria tolerado qualquer atraso logístico. “Eles são os donos do tempo, da cidade e de todos aqui, eu, apenas um prestador de serviços, humilde, mas pontual, impecável, perfeito”. Era mais ou menos o que murmurava o alemão, enquanto serrava e pregava com precisão as grossas madeiras e os sarrafos devidamente afinados e lixados. “Impecável, perfeito”, repetia medindo milimetricamente a madeira. Afiou mais uma vez, com delicadeza, os dentes já extremamente adelgaçados do serrote, sacou o lápis de carpinteiro da orelha marcando a olho uma diagonal no lado mais largo do sarrafo e serrou, passou a ponta do dedo na recente parte pontiaguda, colocou-o na mira do olho experiente e quase sorriu satisfeito. Impecável, perfeito. Pegou o formão da caixa de ferramentas, girou-o no ar com intimidade e começou a desbastar várias cunhas e cavacos para usos determinados. Toda ação do carpinteiro se fazia rápida e sem gestos vãos. Uma ferramenta precisa e eficiente cumprindo um serviço indispensável, era como ele se sentia sempre, e aquela tarefa seria, sem dúvida, a mais importante e preciosa de todas, de toda a sua vida.

Aos poucos, a cidade começou a despertar e os freqüentadores do centro, um a um, foram surgindo na praça onde um alto palanque se erguia em estado bem adiantado de montagem, pelo menos, o feio esqueleto da parte inferior que sustentaria toda a estrutura já estava coberto com um caprichoso tapume de lambri, com macho e fêmea perfeitamente justapostos sem deixar brecha alguma que permitisse olhares curiosos e analíticos para o seu interior. Se tinha uma coisa de que o velho Ruschel se orgulhava era o capricho do seu labor, não suportava críticas e desprezava os elogios. As pessoas viam o palanque se aprontar como que sozinho, tamanha era a objetividade da montagem e a destreza do profissional, que, solitário, executava e limpava o ambiente com a sua obsessão germânica. Por temperamento, raramente aceitava ajudantes, muito menos neste trabalho de extrema responsabilidade, era forte como um touro e se bastava. Não suportava intromissões, tanto que, o pessoal chegava, cumprimentava o velho mestre, fazia algum comentário e, na falta de resposta, se afastava com respeito. O sol subia, mas a obra era mais rápida e ficou pronta mais cedo que o previsto, bem antes do entardecer, permitindo que os organizadores montassem a iluminação, decoração e os preparativos necessários com antecedência. O metódico marceneiro havia riscado no chão referências para cada elemento a ser colocado, cada coisa em seu lugar: mesa, caixas de som, microfones e inclusive o local onde cada autoridade deveria se colocar, conforme planta proposta por ele mesmo e aceita por todos; era impecável, perfeito. Os “maiorais”, como ele dizia, ficariam alinhados de forma que o figurão mais importante se postasse bem no meio e avançado, já que o palanque em seu frontispício central era o vértice de um ângulo aberto, obtuso. Neste desenho triangular, o prefeito teria maior destaque, ladeado à direita, pelo padre; à esquerda, pelo tenente-coronel, seguidos pelos vereadores, o gerente do Banco do Brasil, o tabelião e o empresariado graúdo, todos com suas respectivas esposas. O velho Ruschel foi rigorosíssimo neste detalhe e só se afastou quando teve a certeza de que tudo seria cumprido à risca.

Às oito horas em ponto, a bandinha da Brigada Militar situada na retreta da praça, ao lado do palanque, começou a tocar o hino da cidade, dando início à comemoração. A graudagem foi se chegando, sem pressa, na ordem inversa de importância; até o prefeito, com os seus mais de cento e sessenta quilos, se aproximar, cumprimentar a puxa-sacagem e subir, já eram mais de oito e meia e o velho Ruschel, distante, sobre o pedestal de uma estátua, vigiava.
O grande prefeito, depois de muitos aplausos, iniciou seu discurso abrindo oficialmente o evento. A satisfação geral tomou conta da praça, a população inteira da pequena cidade estava presente, todos felizes e orgulhosos.
O protocolo era seguido a rigor, até que, no auge da festa, quando a bandinha atacava com uma polca para valorizar o ponto alto da fala do político-chefe, iniciaram uns estalos no madeirame do piso, que começou a ceder sob a pressão do peso das autoridades. Rapidamente uma grande cratera se abriu no chão e todos foram tragados pelo buraco, dessa vez em ordem direta de importância, já que, o que cedeu primeiro, foi a parte avançada do palanque, o frontispício; e tudo isso na frente de um povo pasmo. A gritaria foi substituindo o som da banda que foi percebendo aos poucos a gravidade da situação, já que nem todos os músicos enxergavam a cena. Foi um Deus-nos-acuda, todos queriam subir no palanque para socorrer a nata social e política da cidade que sucumbira tendo como platéia a sua própria população.
Os primeiros desavisados que chegaram lá em cima e olharam para dentro do buraco, instintivamente recuaram aterrorizados. A cena era inimaginável, longas estacas verticais e pontiagudas minavam o solo inteiro. Todos os que caíram no buraco estavam cravados, estaqueados, com várias lanças atravessadas em seus corpos. Aquelas vidas que até há pouco brilhavam envaidecidas, de um instante para o outro, jaziam e agonizavam empaladas em uma armadilha ao mesmo tempo tosca e sofisticada. Os gemidos agônicos aos poucos foram cessando e já não havia mais sobreviventes, estavam todos mortos, uns sobre os outros, sobrepostos e trespassados. Uma massa ensangüentada formava um conjunto mórbido, achatado pela composição de estacas vermelhas que se sobressaía em uma geometria organizada e tétrica. O primeiro impacto se transformou em pânico e desespero coletivo, emoções extremas foram vividas na noite mais cruel da história daquela comunidade.
Do alto do pedestal, o velho Ruschel murmurou: “Impecável, perfeito”.

O Pandeiro


O Pandeiro, desenho pro meu amigo Paulo Coutinho, que tá na China.